“É mais do que apropriado lembrar aqui, por diversos
motivos, as formulações de Marx que relacionam e distinguem a história alemã da
história inglesa e francesa. Para ser breve: enquanto estas realizam
concretamente um novo mundo, aquela só foi contemporânea de seu tempo no
pensamento. Mas, se ingleses e franceses antes fizeram o mundo do que o
pensaram e os alemães antes o pensaram, do que o fizeram, todos eles, em
âmbitos distintos e em tempos diversos, foram encarnações da vanguarda da
humanidade, os tecelões da universalidade há pouco referida, enquanto que hoje
o primeiro mundo só tem por prática de futuro a repetição inchada de presente,
e por pensamento a razão da manipulação universal e a universal negação
irracionalista da universalidade, ambas renúncias perfeitamente coerentes para
quem perdeu o sentido da universalidade e desocupou de há muito o espaço da
vanguarda, ou seja, que não é mais o corpo e a cabeça dos processos de ponta.
Isso põe a questão de onde estejam ou possam estar
virtualmente - o corpo e a cabeça - da vanguarda da humanidade, dos processos
societários de ponta que retomem a arquitetônica da autoconstrução do homem.
Combinando a exclusão de extremos com a
avaliação de realidade dos países contemporâneos e ainda presente a experiência
proporcionada pelas tentativas revolucionárias do último século, é possível
identificar com fundamento razoável a existência de um número bem reduzido de
países para os quais ruptura e transição socialista podem virtualmente
coincidir.
A Europa, pela inamovibilidade de seus países ricos e
por sua irradiação nos países circunvizinhos e também pelas reversões em curso
na área pós-capitalista. fica desde logo excluída. Na Ásia, em tese, a única
possibilidade seria a Índia. Todavia, em que pese sua industrialização e
significado tecnológico em termos de recursos humanos, a grande parcela de
pobreza existente e o quadro geopolítico em que se insere não permitem manter a
hipótese. Os países africanos, quase sem exceção, configuram casos extremos,
pela incipiência econômica, pela “solução” neocolonialista das lutas de
libertação nacional e por questões peculiares, muito intrincadas no plano
político-cultural e étnico-religioso.
É na América Latina que, longe dos extremos, há alguns
poucos países com razoável industrialização e produção agrária consistente,
índices de experiência sindical e política apreciáveis e atividade intelectual
demarcada, que conjugam, portanto, graus de riqueza e miséria que armam a
tensão para a ruptura exibem base potencial (mínima, ao menos) para dar início
a uma transição árdua e difícil, espacialmente pelas implicações no terreno
político internacional, mas que não estaria compelida a repetir a trajetória
aberrante do caso soviético, chinês ou cubano. E ordem alfabética e com diversidades
em vantagens e desvantagens, em prós e contras: Argentina, Brasil e México.
Há para os três a perspectiva de um itinerário não
comprometido, desde logo porque partiriam de um universo real totalmente
distinto daqueles que estiveram presentes nas tentativas passadas; não seria,
nem poderia ser uma retomada do mesmo figurino, pois há entre os dois momentos
a derrocada do mesmo; nem mesmo uma mera retomada ou repetição das experiências
em geral dos últimos cento e cinquenta anos. Tudo porque é inimaginável uma
revolução futura, que possa ser concebida, preparada e efetivada, que não
subentenda mudanças radicais no complexo da ideação e da prática,
comparativamente às fórmulas vencidas. De sorte que, à guisa de alusão geral e
sumária, há que pensar em: caráter ofensivo da organização e da prática
sindical e política, substitutivo da natureza defensiva que marcou tais
movimentos até aqui, ou seja, luta sindical e política centrada na perspectiva
do trabalho, desenvolvimento a contradição estrutural entre capital e trabalho;
o que significa ter por arrimo ênfase teórica decisiva, de modo que a
atividade prática seja decorrência rigorosa da diagnose de realidade e das
postulações formuláveis a partir dela; atividade política tomada como meio,
ferramental de objetivos e atividades de caráter social, isto é, atividade
política que supera a política; ou que decorre da recuperação do valor
universal da autoconstrução humana, ou seja, da liberdade, decifrada esta e
aquela em sua identidade como revolução permanente.
É preciso deixar muito bem ressaltado que a
virtualidade dos três países só foi afirmada enquanto potência objetiva, tanto
no que tange à ruptura, quando à transição para além do capital, ao mesmo tempo
que foi estabelecida a inexistência de paralelo no campo ideativo. Ou no jargão
consagrado: a possibilidade existente é relativa às condições objetivas, ao
passo que são infirmadas as condições subjetivas.
O grande desafio se põe precisamente aí e sob a dupla
feição já consignada: a debilidade intrínseca da formação subjetiva do
continente e as novas demandas postas nessa esfera pela exigência de
transfiguração cabal das fórmulas antigas de procedimento.
Contudo, a criação da nova subjetividade
revolucionária, ou seja, a recomposição ideal da vanguarda humana pelo
reencontro de sua universalidade própria a partir de condições que a
negam com radicalidade, não é uma contradição desconhecida. Ao inverso,
constitui marxianamente a própria condição de possibilidade de sua efetuação: é
precisamente a exclusão da comunidade dos homens, a perda do homem enquanto
homem que se faz por si mesmo, que constitui o motor da revolução universal.
Que seja uma empresa árdua e longa ao extremo é o
chamado óbvio ululante, tanto mais que hoje e no futuro próximo essa
dificuldade monumental compreende a literalidade incontornável do recomeço.
Todavia, o esforço requerido é proporcional à grandeza do próprio objetivo,
além de ser, o que exclui qualquer outra consideração, o único meio
possível e conhecido para dar início à construção da liberdade.
(...)
O potencial localizado em alguns poucos países da
América Latina não implica privilégios históricos, mas responsabilidades ideais
e reais, como também não subentende a adoção para efeito imediato da plataforma
política da transição socialista. Esta, posta necessariamente na linha do
horizonte, orienta, isto sim, os rumos difíceis da superação da via colonial
da objetivação do capitalismo. É disto que se trata na imediaticidade, do
processo de rompimento do capitalismo estruturalmente induzido e subordinado. o
que significa compreender a ruptura como processo complexo, que objetiva
necessariamente reorganizar o sistema de produção, sem perseguir a
superação do modo de produção, mas promovendo a desestruturação dos
aspectos mais gravosos da efetivação do capital atrófico e de sua (des)ordem
societária. Ruptura coma a via colonial de desenvolvimento que, em
outros textos, denominei de primeira transição, para deixar evidenciado
o perfil global do processo e a conexão de seus objetivos imediatos e remotos:
a primeira transição, designação aqui reafirmada, está vinculada em sua
distinção à transição socialista, consubstancia as transformações
imediatamente possíveis e abre estruturalmente para a transição última, que
projeta para além do capital. Compreender esse todo processual, como o conjunto
de uma dupla transição, supera radicalmente qualquer dos equívocos
relativos à promoção da completude do capital e evita, pela raiz, toda
sorte de politicismos e as esdrúxulas justaposições do etapismo explícito ou
camuflado. Em suma, a dupla transição reafirma o socialismo ao mesmo
tempo que reconhece a impossibilidade de sua realização imediata, sem conduzir
ao imobilismo e sem permitir que a afirmação socialista seja transformada em
discurso melancólico da mais nobre volição ou da mais tacanha teimosia”.
José Chasin – A sucessão na crise e a crise na
esquerda