“Na medida em que a burguesia inglesa admite que o
pauperismo é uma responsabilidade da política, o whig considera o tory e o tory
o whig a causa do pauperismo. Segundo o whig, o monopólio da grande propriedade
fundiária e a legislação protecionista contra a importação de cereais são a
fonte principal do pauperismo. Segundo o tory, todo o mal reside no
liberalismo, na concorrência, no exagerado desenvolvimento industrial. Nenhum
dos partidos encontra a causa na política em geral, pelo contrário, cada um
deles a encontra na política do partido adversário; porém, ambos os partidos
sequer sonham com uma reforma da sociedade.
(...)
O Estado jamais encontrará no "Estado e na
organização da sociedade" o fundamento dos males sociais (...). Onde há
partidos políticos, cada um encontra o fundamento de qualquer mal no fato de
que não ele, mas o seu partido adversário, acha-se ao leme do Estado. Até os
políticos radicais e revolucionários já não procuram o fundamento do mal na
essência do Estado, mas numa determinada forma de Estado, no lugar da qual eles
querem colocar uma outra forma de Estado.
O Estado e a organização da sociedade não são, do
ponto de vista político, duas coisas diferentes. O Estado é o ordenamento da
sociedade. Quando o Estado admite a existência de problemas sociais, procura-os
ou em leis da natureza, que nenhuma força humana pode comandar, ou na vida
privada, que é independente dele, ou na ineficiência da administração, que
depende dele. Assim, a Inglaterra acha que a miséria tem o seu fundamento na
lei da natureza, segundo a qual a população supera necessariamente os meios de
subsistência. Por um outro lado, o pauperismo é explicado como derivando da má
vontade dos pobres, ou, de acordo com o rei da Prússia, do sentimento não
cristão dos ricos, e, segundo a Convenção, da suspeita disposição
contra-revolucionária dos proprietários. Por isso, a Inglaterra pune os pobres,
o rei da Prússia admoesta os ricos e a Convenção guilhotina os proprietários.
Finalmente,
todos os Estados procuram a causa em deficiências acidentais intencionais da
administração e, por isso, o remédio para os seus males em medidas
administrativas. Por que? Exatamente
porque a administração é a atividade organizadora do Estado.
O Estado não pode eliminar a contradição entre a
função e a boa vontade da administração, de um lado, e os seus meios e
possibilidades, de outro, sem eliminar a si mesmo, uma vez que repousa sobre
essa contradição. Ele repousa sobre a contradição entre vida privada e pública,
sobre a contradição entre os interesses gerais e os interesses particulares.
Por isso, a administração deve limitar-se a uma atividade formal e negativa,
uma vez que exatamente lá onde começa a vida civil e o seu trabalho, cessa o
seu poder. Mais ainda, frente à conseqüências que brotam da natureza a-social
desta vida civil, dessa propriedade privada, desse comércio, dessa indústria,
dessa rapina recíproca das diferentes esferas civis, frente a estas
conseqüências, a impotência é a lei natural da administração. Com efeito, esta
dilaceração, esta infâmia, esta escravidão da sociedade civil, é o fundamento
natural onde se apoia o Estado moderno, assim como a sociedade civil da
escravidão era o fundamento no qual se apoiava o Estado antigo. A existência do
Estado e a existência da escravidão são inseparáveis. O Estado antigo e a
escravidão antiga - fracas antíteses clássicas - não estavam fundidos entre si
mais estreitamente do que o Estado moderno e o moderno mundo de traficantes,
hipócritas antíteses cristãs. Se o Estado moderno quisesse acabar com a
impotência da sua administração, teria que acabar com a atual vida privada. Se
ele quisesse eliminar a vida privada, deveria eliminar a si mesmo, uma vez que
ele só existe como antítese dela. Mas nenhum ser vivo acredita que os defeitos
de sua existência tenham a sua raiz no princípio da sua vida, na essência da
sua vida, mas, ao contrário, em circunstâncias externas à sua vida. O suicídio
é contra a natureza. Por isso, o Estado não pode acreditar na impotência
interior da sua administração, isto é, de si mesmo. Ele pode descobrir apenas
defeitos formais, casuais, da mesma, e tentar remediá-los. Se tais modificações
são infrutíferas, então o mal social é uma imperfeição natural, independente do
homem, uma lei de Deus, ou então a vontade dos indivíduos particulares é por
demais corrupta para corresponder aos bons objetivos da administração. E quem
são esses pervertidos indivíduos particulares? São os que murmuram contra o
governo sempre que ele limita a liberdade e pretendem que o governo impeça as
conseqüências necessárias dessa liberdade.
Quanto mais poderoso é o Estado e, portanto,
quanto mais político é um país, tanto menos está disposto a procurar no
princípio do Estado, portanto no atual ordenamento da sociedade, do qual o
Estado é a expressão ativa, autoconsciente e oficial, o fundamento dos males
sociais e a compreender-lhes o princípio geral. O intelecto político é político
exatamente na medida em que pensa dentro dos limites da política. Quanto mais
agudo ele é, quanto mais vivo, tanto menos é capaz de compreender os males
sociais. (...) O princípio da política é a vontade. Quanto mais unilateral,
isto é, quanto mais perfeito é o intelecto político, tanto mais ele crê na
onipotência da vontade e tanto mais é cego frente aos limites naturais e
espirituais da vontade e, consequentemente, tanto mais é incapaz de descobrir a
fonte dos males sociais”.
(Marx - Glosas Críticas Marginais ao Artigo "O Rei da Prússia e a Reforma Social".
De um Prussiano).

