“O
propósito da estética não é a reprodução de um objeto existente. A estética
produz um objeto que não é existente, mas que tem o significado mais profundo
do existente. A estética, a arte, não é a expressão do mundo interior do
artista. A ninguém interessa o que se passa no mundo subjetivo do artista. A
mãe dele, a avó, talvez estejam interessadas, mas o público que desfruta da
arte pouco se importa com os dramas ou as felicidades do artista a não ser
quando esta subjetividade do artista é o caminho pelo qual ele mostra, sob a
sua explicitação específica, uma objetividade humanamente significativa posta
na realidade. Estas baboseiras que a gente ouve de artistas de grande valor,
inclusive de Piazzola, por exemplo. Piazzola é um extraordinário músico, mas é
uma besta enquanto pensa a própria arte. É um dos poucos músicos contemporâneos
de real importância e expressão, agora não tem a menor idéia do que está
dizendo. Isso é comum na arte.
Na arte, de uma forma muito acentuada, a
efetivação é muito separada da consciência da efetivação. Objetivar algo no
plano estético (uma canção, uma poesia, um quadro, uma peça de teatro, uma
partitura musical) é muito diverso de saber o que está fazendo. Claro que não
faz mal a nenhum artista saber o que está fazendo e, aliás, os grandes artistas tendem
progressivamente a saber o que estão fazendo, mas são raros. Então, nunca
perguntem a um artista o que ele fez. Ele é a pior fonte. No mundo
contemporâneo nós temos falseantes. Eles não são artistas, eles não sabem que
não são. Eles são pré-socráticos. Eles não fazem arte, pensam que fazem, mas
não sabem o que estão fazendo. Arte é uma forma específica de por o objetivo
sob carnes que são uma criatura engendrada. Eu dou um exemplo na literatura: o
personagem de um grande romancista não existe na realidade, mas ele é pura
realidade. Como é que ele é e não é? Porque ele, na individuação estética, é
uma síntese de inúmeros indivíduos do mesmo tipo, não de todos os homens, mas
de uma parte específica deles. Por isso que ele é um particular, é um tipo. Uma
boa obra de arte, um bom romance não é aquilo que é verossímil. Pouco interessa esteticamente se podia ou não ter
acontecido.
(...)
A
estética não trabalha indivíduos nem universais, por isso que Napoleão nunca
foi personagem de um romance que preste. Porque Napoleão é quase que um
singular em sua particularidade. É como se fosse um conjunto de um só membro.
Ele não é um típico. O grande romance, a grande obra de arte, sob diferentes
formas só trabalha com típico, isto é, uma extensão intensificada do singular
que nunca alcança a universalidade. E se alcançar a universalidade destipifica,
passa a ser todos os homens. A literatura naturalista, por exemplo, de Zola.
Ele não é um grande romancista, mas é apenas um naturalista. Não é um realista.
A prostituta de Zola é tão monumental que não tipifica nada. Os mineiros de
Germinal não são mineiros. São tão monumentais que aquilo não existe. Em vez do
recurso do típico, o naturalista leva ao exagero, ao vício. É um vicio divino
de tão grande, é um monumento do vício. A escultura nazista é um monumento que
não tem mais nada a ver com o típico do homem. O assim chamado realismo
socialista não tem nenhum valor estético porque é uma monumentalidade que não
tem mais nada a ver com o homem. Máquinas agrícolas que dançam de felicidade é
uma metáfora de mau gosto, não é o típico. É o desnaturamento dos instrumentos
específicos da estética.
(...)
A verdadeira obra de arte não se supera
como um produto científico. Se supera na medida em que ele é mais amplo. Galileu
foi importante, mas foi superado por Newton que por sua vez foi superado por
Einstein. Eu não preciso voltar nem a Newton nem a Galileu para saber física
hoje. O teatro grego é tão importante hoje quanto foi entre os gregos porque
ele é o registro de momentos específicos. Não é para fazer teatro como os
gregos, aliás, seria impossível recorrer hoje à mitologia como eles recorriam.
O segredo da força do teatro grego é a tipificação pela mitologia.
(...)
As artes não trabalham, não dizem as
mesmas coisas. O que é possível de ser dito na literatura não é possível na
música; o que é possível de ser dito na música não é possível na literatura. O
que é mais importante como arte, a música ou a literatura? São diversos. É o
uno da arte na sua multiplicidade e cada arte tem um campo específico para
exprimir. A música só exprime afetos e nada mais. O afeto positivo e o
negativo, o amor, o ódio, a alegria, a tristeza. Nenhuma outra coisa. É a mais abstrata das artes. Ela mexe
diretamente na tua afetividade. As diversas formas de arte são, no seu
conjunto, o uno do pôr estético. O por estético é uma forma especifica de apreensão
do espírito. É uma maneira de apanhar o mundo tendo sempre como centro o homem.
A arte é antropomorfizadora, a ciência não é. Ela tem que ser objetiva, é o que
é.
(...)
A
arte é o meio pelo qual o homem projeta e acompanha o seu desenvolvimento
humano. A arte não é alguma coisa para o lazer no nosso sentido: ouvir uma
musiquinha. Ela é uma operação necessária no plano da ideação para a
autoconstrução do homem no seu galgar à humanidade. A arte tem uma função
específica. Por isso que o homem é centro em qualquer coisa na arte, se não for
não é arte.
Vejam
como é fundamentalmente atraente como multidões ficam pulando feito ganso. É que é uma arte de baixíssimo nível
(uma não arte) que faz, no entanto, as individualidades se movimentarem. A arte
é um fenômeno da dimensão humana, é uma necessidade humana. Por isso ela pode
ser boa ou má. Em épocas ruins predomina a má arte. É o caso nosso.
Como é que a gente reconheceria a arte?
Sempre que ela for uma ideação que diz aos homens alguma coisa com relação ao
seu auto-reconhecimento e projeção na escala do humano, ou seja, a arte é, para
cada indivíduo em-si, o instrumento pelo qual ele faz um contato especial
(catártico) com o mundo, isto é, ele recua bastante da imediaticidade. A boa
arte não é aquela colada na imediaticidade. Aliás, a arte é junto com a
filosofia as duas ideações mais afastadas do imediato. A arte não pede "a
mordida no coração da Mariazinha" nem pede "uma mobilização imediata
para a revolução do proletariado". A arte me afasta da imediaticidade e me
faculta o processo catártico, ou seja, o processo de identificação em que eu
posso me auto-avaliar e me examinar no processo de elevação da minha
generidade. Estou me tornando ou não mais humano?
(...)
A
boa música, a música enquanto arte, não me faz ficar dolente, mas ela me leva a
um afastamento de reexame de mim, na minha construção, em suma, ela não me
estimula glandularmente, mas ela me faz pensar o sentimento. O sentimento é
ressentido sem o afastamento da racionalidade. É o inverso da moçada saltitando
feito franguinho para o abate diante de coisas fazendo um barulho absolutamente
sem nenhum significado. Não pensem porque é popular. Não é isto. Dorival Caymmi
é popular e é arte de primeiríssima qualidade. Não é esse o problema.
(...)
Na
arte erudita da música, por exemplo, a excrescência é absolutamente dominante
há cinqüenta anos. A música dodecafônica é uma paranóia absolutamente
insustentável. Não tem nada a ver com arte.
(...)
Então,
a música mexe com afetividade dominantemente. O romance mexe com uma reflexão
mais ampla ao nível de uma conceituação. Típicos que aparecem com os quais eu
me enquadro ou desenquadro. A pintura só me tematiza em termos catárticos, a
imagem que o romance e a música não podem me dar. As diferentes artes são
elementos de ideação específicos sob cada forma de objetivação. Estão
delimitados em sua possibilidade, ou seja, um grande romance não substitui uma
grande partitura, nem uma grande partitura substitui uma grande tela. Cada uma
delas me dão elementos diferentes neste compósito e o significado da tela não
sou eu que dou. O inverso de toda a estética heideggeriana. A boa arte me dá a
chave do significado dela. Uma natureza morta só significa uma natureza morta e
nada mais. Guernica de Picasso é o registro visual evocador de uma catarse em
nível de todos os afetos de uma tragédia. Para a pintura contemporânea Guernica
não é arte porque arte é o imaginário individual trabalhando forma e cor, ou seja,
para a pintura contemporânea, arte é o compósito subjetivo de abstratos”.
(Este excerto foi feito da
transcrição literal de aulas ministradas [pelo professor José Chasin] durante o
curso de pós-gradução em filosofia política, promovido pelo dep. de Filosofia e
História da Universidade Federal de Alagoas, de 25/01 a 06/02 de 1988. O título
da transcrição (de 250 páginas) é Superação
do Liberalismo).
