quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Questões ligadas à ideação estética

“O propósito da estética não é a reprodução de um objeto existente. A estética produz um objeto que não é existente, mas que tem o significado mais profundo do existente. A estética, a arte, não é a expressão do mundo interior do artista. A ninguém interessa o que se passa no mundo subjetivo do artista. A mãe dele, a avó, talvez estejam interessadas, mas o público que desfruta da arte pouco se importa com os dramas ou as felicidades do artista a não ser quando esta subjetividade do artista é o caminho pelo qual ele mostra, sob a sua explicitação específica, uma objetividade humanamente significativa posta na realidade. Estas baboseiras que a gente ouve de artistas de grande valor, inclusive de Piazzola, por exemplo. Piazzola é um extraordinário músico, mas é uma besta enquanto pensa a própria arte. É um dos poucos músicos contemporâneos de real importância e expressão, agora não tem a menor idéia do que está dizendo. Isso é comum na arte.

Na arte, de uma forma muito acentuada, a efetivação é muito separada da consciência da efetivação. Objetivar algo no plano estético (uma canção, uma poesia, um quadro, uma peça de tea­tro, uma partitura musical) é muito diverso de saber o que está fazendo. Claro que não faz mal a nenhum artista saber o que está fazendo e, aliás, os grandes artistas tendem progressivamente a saber o que estão fazendo, mas são raros. Então, nunca perguntem a um artista o que ele fez. Ele é a pior fonte. No mundo contemporâneo nós temos falseantes. Eles não são artistas, eles não sabem que não são. Eles são pré-socráticos. Eles não fazem arte, pensam que fazem, mas não sabem o que estão fazendo. Arte é uma forma específica de por o objetivo sob carnes que são uma criatura engendrada. Eu dou um exemplo na literatura: o personagem de um grande romancista não existe na realidade, mas ele é pura realidade. Como é que ele é e não é? Porque ele, na individuação estética, é uma síntese de inúmeros indivíduos do mesmo tipo, não de todos os homens, mas de uma parte específica deles. Por isso que ele é um particular, é um tipo. Uma boa obra de arte, um bom romance não é aquilo que é verossímil. Pouco interessa esteticamente se podia ou não ter acontecido.
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A estética não trabalha indivíduos nem universais, por isso que Napoleão nunca foi personagem de um romance que preste. Porque Napoleão é quase que um singular em sua particularidade. É como se fosse um conjunto de um só membro. Ele não é um típico. O grande romance, a grande obra de arte, sob diferentes formas só trabalha com típico, isto é, uma extensão intensificada do singular que nunca alcança a universalidade. E se alcançar a universalidade destipifica, passa a ser todos os homens. A literatura naturalista, por exemplo, de Zola. Ele não é um grande romancista, mas é apenas um naturalista. Não é um realista. A prostituta de Zola é tão monumental que não tipifica nada. Os mineiros de Germinal não são mineiros. São tão monumentais que aquilo não existe. Em vez do recurso do típico, o naturalista leva ao exagero, ao vício. É um vicio divino de tão grande, é um monumento do vício. A escultura nazista é um monumento que não tem mais nada a ver com o típico do homem. O assim chamado realismo socialista não tem nenhum valor estético porque é uma monumentalidade que não tem mais nada a ver com o homem. Máquinas agrícolas que dançam de felicidade é uma metáfora de mau gosto, não é o típico. É o desnaturamento dos instrumentos específicos da estética.
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A verdadeira obra de arte não se supera como um produto científico. Se supera na medida em que ele é mais amplo. Galileu foi importante, mas foi superado por Newton que por sua vez foi superado por Einstein. Eu não preciso voltar nem a Newton nem a Galileu para saber física hoje. O teatro grego é tão importante hoje quanto foi entre os gregos porque ele é o registro de momentos específicos. Não é para fazer teatro como os gregos, aliás, seria impossível recorrer hoje à mitologia como eles recorriam. O segredo da força do teatro grego é a tipificação pela mitologia.
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As artes não trabalham, não dizem as mesmas coisas. O que é possível de ser dito na literatura não é possível na música; o que é possível de ser dito na música não é possível na literatura. O que é mais importante como arte, a música ou a literatura? São diversos. É o uno da arte na sua multiplicidade e cada arte tem um campo específico para exprimir. A música só exprime afetos e nada mais. O afeto positivo e o negativo, o amor, o ódio, a alegria, a tristeza. Nenhuma outra coisa. É a mais abstrata das artes. Ela mexe diretamente na tua afetividade. As diversas formas de arte são, no seu conjunto, o uno do pôr estético. O por estético é uma forma especifica de apreensão do espírito. É uma maneira de apanhar o mundo tendo sempre como centro o homem. A arte é antropomorfizadora, a ciência não é. Ela tem que ser objetiva, é o que é.
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A arte é o meio pelo qual o homem projeta e acompanha o seu desenvolvimento humano. A arte não é alguma coisa para o lazer no nosso sentido: ouvir uma musiquinha. Ela é uma operação necessária no plano da ideação para a autoconstrução do homem no seu galgar à humanidade. A arte tem uma função específica. Por isso que o homem é centro em qualquer coisa na arte, se não for não é arte.

Vejam como é fundamentalmente atraente como multidões ficam pulando feito ganso. É que é uma arte de baixíssimo nível (uma não arte) que faz, no entanto, as individualidades se movimentarem. A arte é um fenômeno da dimensão humana, é uma necessidade humana. Por isso ela pode ser boa ou má. Em épocas ruins predomina a má arte. É o caso nosso.

Como é que a gente reconheceria a arte? Sempre que ela for uma ideação que diz aos homens alguma coisa com relação ao seu auto-reconhecimento e projeção na escala do humano, ou seja, a arte é, para cada indivíduo em-si, o instrumento pelo qual ele faz um contato especial (catártico) com o mundo, isto é, ele recua bastante da imediaticidade. A boa arte não é aquela colada na imediaticidade. Aliás, a arte é junto com a filosofia as duas ideações mais afastadas do imediato. A arte não pede "a mordida no coração da Mariazinha" nem pede "uma mobilização imediata para a revolução do proletariado". A arte me afasta da imediaticidade e me faculta o processo catártico, ou seja, o processo de identificação em que eu posso me auto-avaliar e me examinar no processo de elevação da minha generidade. Estou me tornando ou não mais humano?
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A boa música, a música enquanto arte, não me faz ficar dolente, mas ela me leva a um afastamento de reexame de mim, na minha construção, em suma, ela não me estimula glandularmente, mas ela me faz pensar o sentimento. O sentimento é ressentido sem o afastamento da racionalidade. É o inverso da moçada saltitando feito franguinho para o abate diante de coisas fazendo um barulho absolutamente sem nenhum significado. Não pensem porque é popular. Não é isto. Dorival Caymmi é popular e é arte de primeiríssima qualidade. Não é esse o problema.
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Na arte erudita da música, por exemplo, a excrescência é absolutamente dominante há cinqüenta anos. A música dodecafônica é uma paranóia absolutamente insustentável. Não tem nada a ver com arte.
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Então, a música mexe com afetividade dominantemente. O romance mexe com uma reflexão mais ampla ao nível de uma conceituação. Típicos que aparecem com os quais eu me enquadro ou desenquadro. A pintura só me tematiza em termos catárticos, a imagem que o romance e a música não podem me dar. As diferentes artes são elementos de ideação específicos sob cada forma de objetivação. Estão delimitados em sua possibilidade, ou seja, um grande romance não substitui uma grande partitura, nem uma grande partitura substitui uma grande tela. Cada uma delas me dão elementos diferentes neste compósito e o significado da tela não sou eu que dou. O inverso de toda a estética heideggeriana. A boa arte me dá a chave do significado dela. Uma natureza morta só significa uma natureza morta e nada mais. Guernica de Picasso é o registro visual evocador de uma catarse em nível de todos os afetos de uma tragédia. Para a pintura contemporânea Guernica não é arte porque arte é o imaginário individual trabalhando forma e cor, ou seja, para a pintura contemporânea, arte é o compósito subjetivo de abstratos”.

(Este excerto foi feito da transcrição literal de aulas ministradas [pelo professor José Chasin] durante o curso de pós-gradução em filosofia política, promovido pelo dep. de Filosofia e História da Universidade Federal de Alagoas, de 25/01 a 06/02 de 1988. O título da transcrição (de 250 páginas) é Superação do Liberalismo).